![]() ano 2 número 13 / agosto 2009 |
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:: Stela Guedes Caputo :: < Práticas de Docentes > O MUNDO É FEITO DE CONTRADIÇÕES - O QUE ISTO TEM A VER COM AS PRÁTICAS DE PROFESSORES? –
No dia 20 de setembro participei da II Caminhada pela Liberdade Religiosa. Como já se esperava, o número de participantes mais que triplicou em comparação ao ano passado. Éramos cerca de 80 mil, segundo a PM. Mas não foi só a diferença em números que marcou a atividade. Já na sua primeira edição, a manifestação organizada pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa mostrava, evidentemente, uma disputa de poder revelada pelo acesso ao carro de som, aos parlamentares que podiam falar ou não, aos que dominavam o microfone. Com tudo isso, a marca do primeiro evento foi a alegria que o encontro fraterno de diversas religiões propiciou em toda a orla de Copacabana. Esse ano, a passeata foi transformada em um grande palanque. O governo federal estava lá através de seu Ministro da Igualdade Racial (Edson Santos). Estavam lá diversos parlamentares além de secretários de Estado. Os discursos, sem fim, atrasaram de maneira absurda a saída da caminhada que, marcada para às 9h, só saiu às 14 horas. A principal propaganda do governo federal, na passeata, era a recente aprovação do Estatuto da Igualdade racial. O Ministro discursava sobre o feito como se fosse uma vitória estrondosa. Será? O texto votado pela comissão especial, que tenho aqui em mãos, lido, excluiu referência específica às comunidades de remanescentes quilombolas. A exigência, claro, partiu da bancada ruralista. O texto também deixou de fora a regra que previa oportunidades iguais para negros nas áreas de publicidade, televisão e cinema. Também sumiu do acordo a cotas para negros no Ensino Público. O que ficou então? As cotas em partidos políticos para representantes de comunidades negras. De acordo com o texto aprovado, coligações e partidos políticos devem ter, no mínimo, 10% de representantes negros em suas campanhas para eleições de deputados federais, estaduais e vereadores. Ou seja, nada de novo. Mas o Ministro proclamava: vitória!!!! No chão, ouvindo discursos estridentes (o som do microfone era alto demais), estavam milhares de pessoas de diversas religiões, mas, sem dúvida, a imensa maioria composta pelo chamado “povo de santo”, filhos e filhas de candomblé e umbanda, pais e mães de santo, senhoras, adolescentes, crianças. Muitas, como Tauana dos Santos, 18 anos, passaram a noite em claro ensaiando coreografias para serem apresentadas. Não puderam. “Ano que vem não venho mais. Só os políticos falam e aparecem aqui”, reclamou a estudante. Everton Leonardo, de 9 anos também estava lá e me disse ser bastante discriminado na escola porque é do candomblé. Perguntei se os professores e professoras de sua escola ajudam a diminuir seu sofrimento quando ele é discriminado. Everton respondeu: “Muitos não, muitos sim. Precisava ter mais gente ajudando”. Caroline dos Santos, de 9 anos, também do candomblé me disse uma coisa que em anos de pesquisa com crianças de candomblé ainda não havia escutado: “eu me sinto sozinha na escola. Muito sozinha”. Ainda mais: um acordo entre o governo brasileiro e o Vaticano foi fechado garantindo ênfase ao ensino religioso católico o que vai, sem a menor dúvida, dificultar ainda mais a situação de crianças e adolescentes de candomblé nas escolas públicas. Silêncio total sobre isso, durante a passeata, pois, afinal, os que tinham a palavra, no carro de som, eram representantes dos que tinham assinado o acordo. Quando o Ministro desceu do carro de som perguntei a ele como ele podia comemorar um estatuto votado tão abaixo do que era necessário e que abriu mão de importantes princípios para os negros e negras desse país. Perguntei ainda o que ele achava da discriminação às religiões afro-descendentes reforçada pelo acordo com o Vaticano. Ele se limitou a dizer que eu não havia lido nem o estatuto aprovado e nem a tal Concordata. Eu disse que havia lido e bem os dois textos. Ele finalizou: “O mundo é feito de contradições”. E eu devolvi: “Sim, contradições que precisam ser superadas quando o povo negro é explorado e discriminado nesse país”. Ele me deu as costas e sumiu com seus assessores no meio da multidão. Em minha prática como professora, como lidar com isso tudo, a favor dos que estão perdendo? Como levar estas questões a outros professores e professoras que continuam discriminando seus alunos porque são do candomblé aumentando seu sofrimento? . . . . . . . . . . .
√ Stela Guedes Caputo: Professora visitante do ProPEd/Faculdade de Educação/UERJ, membro do GRPesq Currículos, redes educativas e imagens. |