![]() ano 2 número 13 / agosto 2009 |
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:: Carlos Roberto de Carvalho :: < Inventando o Futuro > GARIMPO DAS MEMÓRIAS E DAS COISAS: ANOTAÇÕES DE UMA PESQUISA EM EDUCAÇÃO. Já há algum tempo vimos trabalhando com narrativas provocadas/mobilizadas por objetos culturais no campo da educação. Neste mar de histórias que emergem da memória do sujeito em seu contato com as coisas, mais que marinheiros, somos catadores de ruínas e de pérolas, ao mesmo tempo. Material que vamos recolhendo com nossa frágil barquinha. Barquinha de papel em que toda memória dobra-se, desdobra-se. Entre achados e perdidos, lançamos nossas redes junto às ilhas de recordações líquidas para fazer pescaria do tempo. Captar na alma das coisas a cadeia dos acontecimentos históricos que nos fizeram ser um eu entre outros eus - uma imagem pública que pendula entre o ser e o parecer. Admirando-as de perto - percebemos através dessas histórias-pérolas que não nascemos apenas em um reino moral, mas antes, num reino de coisas. Percebemos que foram elas - e não outras - que nos nutriram nos vestiram, nos adornaram nos curaram nos perfumaram, nos educaram, nos distraíram na aventura da vida cotidiana. Percebemos que sem elas não poderíamos ter sido homem algum ou homem nenhum. Somos, sobretudo, o que comemos, o que vestimos. Somos no e pelos nossos usos. A essência é a aparência. A imagem é a coisa em si. Mas não pensem que somos materialistas: somos por demais místicos, religiosos e católicos para pensar, assim, deste modo tão ateu, tão fetichista. Apenas estamos reconhecendo o óbvio: de que ninguém pode ser sem ter o mínimo - o mínimo com que possa sustentar-se na face do mundo, suas memórias, seus objetos. Não precisaríamos ler Marx, tampouco Hobbes para sabermos que a luta que se faz primeiro é pelas coisas brutas e que só depois passamos às espirituais. Não só eles como toda a ciência fala-nos dessa prioridade. A antropologia, a sociologia e a biologia, por exemplo, já nos ensinaram a ver que, sem elas (as coisas brutas), a existência humana é impossível. Que sem elas homem algum pode subsistir. História, então, que remonta às cavernas. História cumprida que Hannah Arendt em a “Condição Humana” nos dá noticias: tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. (....) a existência humana seria impossível sem as coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não-mundo, se esses artigos não fossem condicionantes da experiência humana (ARENDT , 2003, p. 17). Cuidemos, portanto, das coisas miúdas, das coisas brutas que compõem a paisagem do mundo. Coisas sem as quais todo e qualquer discurso e a própria vida humana seriam um completo absurdo, um não-mundo, porque sem sentido e que faria de todo homem um “Macaco nu”2. Dessas coisas miúdas ocupam-se ilustres pesquisadores: Thompson, Ginzburg, Certeau, Bakhtin. São eles, entre tantos outros, que têm nos abertos os olhos para esses imensos cardumes aparentemente sem história, mas que, não obstante, são os suportes, os motores de todos os acontecimentos cotidianos: comprar-vender, acumular-guardar, descartar, consumir-viver, conviver, viver. Estas histórias miúdas existem, existiram e existirão sempre nas coisas: nas pontes, nos frontispícios dos templos, nas calçadas das ruas, nas pirâmides do Egito, no Taj-Mahal, na Capela Cistina, enfim, entre muitos outros monumentos em que se celebra o esplendor e a barbárie. Existem, sobretudo, nas miudezas cotidianas quase imperceptíveis: numa dobra de calça, numa aba de chapéu, num nó de gravata, numa bainha de vestido, numa pronúncia, num sotaque, num provérbio, numa lágrima, numa piada, baste que, para isso, prestemos atenção aos detalhes (Ginzburg, 1989). Encontramo-las também nos espaços-tempo da cidade: nos sebos, nas lojas de antiguidade, nos bazares de caridade, nos cemitérios, nos guarda-vestidos, nos guarda-louças, nas conversas de rua, nas esquinas que se dobram, nos botequins que se comemoram os dias que se findam e em muitos outros lugares em que a vida cotidiana murmura maculada pelos usos, desusos e abusos. Contar histórias a partir desses indícios, mais que um exercício de recordação mecânica, significa o momento de ressurreição da consciência individual e coletiva de uma geração. Histórias banais que nos fazem perceber que, de tudo que nos passa ou nos passou, ficou um pouco: às vezes um botão, um rato, um pedaço de tecido roto, um pingüim, um broche, um enfeite de nada que pode vir a ser tudo: lembrança de nossa mãe, festa de aniversário, formatura, casamento, batizado - sobretudo imagens do tempo que se encontra acumulado nas coisas. Resíduos. Dentre essas quinquilharias que se acumulam no pó do espaço-tempo de cada vida que se enfuna, as fotografias são documentos eloqüentes. Elas nos informam que o tempo que nos passa é de eterna novidade, que a vida é sempre constante fluir. Que o que foi ontem, amanhã não mais será. . . . . . . . . . . .
√ Carlos Roberto de Carvalho: Doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense; professor adjunto do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Membro do GRPESQ ‘Currículos, redes educativas e imagens’ que integra o Laboratório Educação e Imagem/UERJ, membro do GRPESQ Sociedade do Conhecimento e Conexões Culturais (http://pesccc.ning.com) e membro do Laboratório de Estudos Afro-brasileiros (LEAFRO)/UFRRJ.
Referências bibliográficas (ou textuais): • ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. (10a ed.) • BAKHTIN, Mikhail (VOLOCHINOV). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora Hucitec, 2004 (11a edição). • GINZBURG, Carlo. Mitos emblemas e sinais: morfologia e história. São Paulo, Companhia das Letras, 1989. |