![]() ano 2 número 13 / agosto 2009 |
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:: Dirceu Castilho Pacheco :: < Lembranças de Escolas > MAGISTÉRIO UMA QUESTÃO DE GÊNERO: DE NILDA À NILDA
A feminização do magistério é tema recorrente no campo das pesquisas em Educação acerca de gênero. Nas últimas décadas, inúmeras publicações, de diferentes ordens, preenchem lacunas, ampliando conhecimentos e trazendo novos debates acerca desta temática no campo da história da educação brasileira. Herança oitocentista, quando se acreditava na possibilidade de tornar científico o ato pedagógico através da criação de um discurso que resumia as características técnicas e profissionais exigidas para a docência, principalmente nos anos iniciais de escolarização da criança, a presença feminina no magistério atravessa as histórias de vida, com lembranças as mais diversas e nem sempre só agradáveis, daqueles que um dia tiveram a oportunidade de ter alguma forma de escolarização no sentido estrito do termo. Memórias das escolas e de seus praticantes discentes e docentes, independentemente dos contextos institucionais que as produziram, estão marcadas por lembranças dessas mulheres polissêmicas, seja a bondosa e compreensiva Dª. Maria, do livro “Infância” de Graciliano Ramos, seja a anarquista Dª. Margarida, da peça de Roberto Athayde, todos nós temos muitas histórias para contar de nossas experiências pessoais com nossas, quase sempre, amadas professoras. No campo dos estudos autobiográficos, espaçotempo acadêmico das pesquisas onde procuro tecer meus saberes, vou à busca de minhas memórias acerca de algumas dessas mulheres que, significativas para minha história de vida pessoal e profissional, não se ocultaram no esquecimento próprio daqueles fatos e personagens que a memória teima em não registrar, tornando-os silêncios inconscientes do processo de se tentar lembrar. Assim, nesta peregrinação pelos fios da memória que tecem as redes do meu processo de escolarização e formação acadêmica, nomeio, a partir de minhas lembranças da escola, cinco professoras que marcaram minha vida e que apresento, pelo vício da formação moderna, numa ordem cronológica, mas sem, de nenhuma forma, buscar hierarquizá-las em nível de importância ou competência. São elas: Dª. Nilda Amélia, que me ensinou as primeiras letras ainda na antiga escola primária, em meados dos anos cinquenta e que, quase por acaso, mais recentemente, permitiu-me perscrutar seu arquivo pessoal em minha tese de doutorado. Dª. Maria, professora de música, disciplina obrigatória nos currículos escolares nos anos sessenta, que sobre o tablado que a elevava física e intelectualmente em relação aos seus pequenos alunos, o que ampliava ainda mais seu corpanzil, sempre de diapasão em punho, disciplinava vozes e corpos no melhor estilo foucaultiano. Dª. Risomar, a única professora que me fez gostar da área das ciências biológicas no ginásio, aqui vivi a minha fase do adolescente que se apaixona pela “linda e gentil” professora que teve a vida interrompida, ainda muito jovem, por conta de uma devastadora e incurável doença, ao melhor estilo literário dos amores impossíveis do romantismo do século XIX. Dª. Terezinha, com suas inesquecíveis aulas de geografia, em sua competente didática, me fez viajar e conhecer o Brasil e o Mundo nos livros e em cada uma de suas aulas e, por pouco, não mudou o rumo da minha vida profissional, pois à época em que fui seu aluno desejei e por ela fui estimulado a me tornar geólogo, o que seria, atualmente, muito positivo em épocas do “pré-sal”. Mais tarde, já na academia, duas outras mulheres do magistério foram determinantes em minha formação profissional. São elas: Helena Teodoro, que durante a graduação que fiz em História despertou meu interesse pela didática e prática de ensino com suas táticas de praticantes (CERTEAU, 1994) ali no início dos anos setenta, período marcado no campo político pela ditadura militar em nosso país e no educacional pelo tecnicismo fundado nas teorias behavioristas da aprendizagem e da abordagem sistêmica do ensino e, alguns anos depois, Nilda Alves, que na década atual orientou minha dissertação de mestrado e a tese de doutorado, ensinando-me a identificar e valorizar a importância e o significado dos registros autobiográficos enquanto espaçostempos (ALVES, 2001) onde imprimimos nossas marcas como praticantes dos cotidianos que somos. A foto, que provocou a ideia da escritura desta narrativa, num processo de tessitura (ALVES, 2001) em rede com lembranças da escola e que acompanha este texto de forma meramente ilustrativa, retrata o encontro entre Dª. Nilda Amélia e Nilda Alves durante a defesa de minha tese onde a primeira foi sujeitobjeto (FERRAÇO, 2003) e a segunda, a orientadora da pesquisa. . . . . . . . . . . .
√ Dirceu Castilho Pacheco: Prof. da Faculdade de Educação UERJ e membro do Grupo de Pesquisa “Currículos, redes educativas e imagens”, integrante do Laboratório de Educação e Imagem/ProPEd/Faculdade de Educação/UERJ.
Referências bibliográficas (ou textuais): • ALVES, Nilda. Espaço e tempo de ensinar e aprender. In: CANDAU, Vera Maria (Org). Anais do X ENDIPE – Linguagens, espaços e tempos no ensinar e aprender. Rio de Janeiro: DP&A, 2000: 21-33. • CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano – Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. • FERRAÇO, Carlos Eduardo. Eu caçador de mim. In: GARCIA, Regina Leite (Org). Método: pesquisa com o cotidiano. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p. 157 – 175. |