ano 2 número 13 / agosto 2009 

:: Rosa Helena Mendonça ::   < Culturas e Imagens >

BRAVAS E BOAZINHAS: UM CONTO DE ESCOLA

CIEP Tancredo Neves

Era uma vez uma sala com paredes de vidro, rodeada de estantes repletas de livros, muitos livros. Lá, sentadas em roda, crianças ouviam uma história que a professora contava com voz suave. Ao fundo, numa mesa, outra professora organizava o acervo e se preparava para receber mais um grupo de crianças. De repente, um dos meninos levantou e, correndo em volta da roda, puxou alguma coisa da mão de uma colega em frente (seria um livro, uma bala, um brinquedo?). A professora correu atrás dele. A roda se desfez. Eis que, qual uma flexa, o pequeno atravessou a vidraça. A contadora de histórias quase desmaiou, as crianças gritavam. O menino chorava, afinal, os bravos também choram! A outra professora, com as pernas bambas, foi socorrer o acidentado. Resultado, um pequeno corte no braço, muito sermão e estilhaços por toda parte. Milagre?

Essa é apenas uma das histórias que fazem parte do “acervo imaterial” da sala de leitura. Em meio a contos e lendas em livros ilustrados, enciclopédias, dicionários, outras histórias iam sendo tecidas, todas muito significativas. Relatos de vida, histórias sobre educação.

Se você, leitor ou leitora, tem interesse no assunto, acompanhe esta aqui. Para uma melhor compreensão, volto no tempo. Afinal, as narrativas prevêm este recurso.

A equipe participava de um treinamento (era assim que se dizia naquela época) com leituras, reuniões, dinâmicas, muitas conversas. O ano era 1985 e o local, a cidade do Rio de Janeiro. Mais especificamente, estávamos no tradicional bairro do Catete. Para ser mais precisa ainda, em um prédio de arquitetura arrojada, recém-construído. Em breve, seria inaugurado ali o primeiro Centro Integrado de Educação Pública e nos preparávamos para receber, em horário integral, os alunos e alunas das comunidades vizinhas. Corria, à boca pequena, que a maioria seria transferida das escolas próximas, uma vez que o ano letivo já havia iniciado. Em meio a uma comoção nacional, no dia 21 de abril, faleceu aquele que viria a ser o patrono do CIEP Tancredo Neves, inaugurado a 08 de maio, pelo governador Leonel Brizola.

As crianças e eu na sala de leitura.(Fotos publicadas no Suplemento da edição nº. 1.750 da Revista Manchete. Rio, 02/11/85)

A inauguração do primeiro CIEP foi um dia memorável, mas, nesta história, prefiro falar do “day after”, e dos que se seguiram, pois o amanhã seguirá sendo sempre “um outro dia”.

Muitos de nós ali presentes nos sentíamos convocados a fazer uma nova escola e, sinceramente, estávamos empenhados nesta tarefa. Uma escola nova, uma sociedade nova, afinal, saíamos de uma ditadura e a vivência democrática era uma aprendizagem para todos.

Eu trabalhava na Sala de Leitura, uma construção octogonal, ao fundo do prédio principal – aquela à qual me refiro na abertura do texto – toda envidraçada, circundada por estantes cheias de livros, com mesas e cadeiras ao centro. Fizemos um planejamento para a inauguração. Uma das atividades era uma espécie de “caça ao tesouro”.

As crianças, após seguirem algumas pistas em um mapa que assinalava pontos no caminho da sala, chegavam ao verdadeiro tesouro: a biblioteca! Devo confessar que este primeiro dia de aula foi estafante, ainda não estávamos habituados a uma rotina de nove horas de atividades. Nem nós, nem as crianças! E mais elas do que nós, as professoras (uso o feminino porque, como sempre, nas escolas até a quarta série há mesmo muito mais professoras). Elas ficavam o dia todo, enquanto nós, exceto as que dobravam, só um período.

Ah, como tivemos de aprender a lidar com o desafiante cotidiano de uma escola de horário integral, construção de concreto, meias paredes, amplos refeitórios com televisão e vídeo, quadras, salas de leituras envidraçadas (lembram?) e equipes multidisciplinares com professores, funcionários, animadores culturais, médicos, dentistas. Havia centros de estudo, reuniões, grades de horário organizadas e reorganizadas. E as visitas constantes de políticos, estadistas, artistas... Mal estávamos conseguindo estabelecer uma rotina e um acontecimento nos impelia para novas organizações.

Não vou aqui tentar fazer uma análise profunda desse período, mas quero falar de um sentimento pessoal, de uma busca singular no exercício da profissão docente que no CIEP se converteu a uma questão aparentemente simples: como exercitar a autoridade sem ser autoritária? Para falar disso, relembro um outro episódio curioso, semelhante, em parte, ao contado logo no início.

Luc era o apelido de um dos alunos mais levados. Ele, todo dia, “aprontava” uma surpresa: xingava, brigava, não parava quieto, tinha dificuldades na leitura e na escrita, nos jogos não sabia perder (quem sabe?) e tudo isso em meio a uma recusa em conversar, dialogar, com quem quer que fosse. Tentamos várias estratégias: chamar a família, encaminhar para atendimento psicológico. Eis que um dia, Luc caiu e cortou o supercílio. No ambulatório não havia recursos para suturar e, como eu estava de carro, me prontifiquei a levá-lo ao pronto-socorro. Lá fomos nós, ele assustado, quieto e eu tentando conversar, ensinar. Na hora dos pontos, não chorou, mas apertava a minha mão e me olhava de um jeito que não esqueci mais. Depois desse dia ele ficou mais próximo de mim, mas continuava o mesmo “arruaceiro” de sempre. Uma ocasião, ao disputar um mesmo livro com uma colega, arrancou o livro da mão da menina. Eu, que desta vez era quem contava a história, tirei o livro dele e o devolvi à pequena. Ele tomou de volta e rasgou a capa. Peguei sua mão, a mesma que apertara a minha no hospital, e saí com ele para a Secretaria. Ao subirmos a rampa, ele me disse:

- Aqui tem dois tipos de professoras: “as nojentas e as babacas!”.

- As bravas e as boazinhas você quer dizer, não é? Eu não quero ser nem uma coisa, nem outra!

- Não pode! Tem que escolher.

- ‘Tá bom, eu escolho, ser boazinha para alunos bonzinhos, e brava para alunos bravos...

- Então não me leva pra Secretaria. Eu prometo ficar bonzinho.

Demos meia volta e descemos a rampa sorrindo. É claro que a promessa não foi cumprida na íntegra, mas começou ali uma possibilidade de diálogo com Luc, aquele menino que, mesmo com dificuldade de aprender a ler e a escrever, de se relacionar, talvez por defesa, demonstrou tanta sabedoria e senso de observação, ao estabelecer categorias de comportamento para as professoras que, mesmo sem saber, estavam sendo avaliadas. E como foi esperto a ponto de me fazer refletir sobre uma decisão que eu tomara com tanta convicção. Ele nunca soube que, com seu pedido, me devolveu a autoridade que eu estava prestes a transferir para a diretora, me fez sentir uma professora melhor, a um só tempo brava e boazinha, capaz de rever uma decisão, sem abrir mão do meu papel de educadora.

E quem nunca viveu uma situação assim, que conte outra!

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√ Rosa Helena Mendonça: Professora, mestre em educação.

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