ano 2 número 13 / agosto 2009 

:: Lívia de Almeida Silva ::   < Cotidianos e Redes Educativas >

USOS E POSSIBILIDADES COTIDIANAS DO DIÁLOGO COM NORMAS EDUCACIONAIS

Em algumas escolas da Rede Municipal do Rio de Janeiro, as sugestões e normas vindas da Secretaria Municipal de Educação não são bem vistas por professores e funcionários, que, geralmente, vêem essas sugestões como "ameaças" e críticas ao seu trabalho. Isso, cria uma certa barreira para que elas sejam, efetivamente, implantadas nas escolas da Rede.

Em trabalho de campo realizado em 2003, por Alexandra Garcia na Escola Municipal Água Nova (nome fictício), na Zona Norte do Rio de Janeiro, pudemos observar as reações das professoras, em um Centro de Estudos, perante o novo sistema de matrículas da Rede, de acordo com o qual o processo que antes era por bairro, passa a ser por região, fazendo com que o público-alvo da instituição se alterasse.

É relatado, que antes dessa mudança, a escola atendia crianças de classe média baixa, cujos pais a procuravam por sua “fama” de boa qualidade e estrutura, fazendo com que o grupo acreditasse que essa estabilidade familiar, emocional e econômica significasse a possibilidade de um bom desenvolvimento do trabalho.

A nova política de matrículas trouxe para a escola, alunos de uma área mais ampla, vindos de creches e pré-escolas de rede pública mais abrangente, pois algumas eram dirigidas pela Secretaria de Desenvolvimento Social, abrigando alunos de classes sociais menos favorecidas. Esse aspecto fez com que a determinação da SME fosse mal vista pelo professorado. Na opinião deste, essa mudança traria prejuízos aos alunos tradicionalmente atendidos, fazendo “baixar” o nível da escola e ampliando as discrepâncias entre os alunos.

Muitos perguntavam: “como vamos trabalhar com tantas discrepâncias? Se com as diferenças que temos hoje [quanto ao rendimento] já é difícil, pois os alunos “mais destacados” já ficam desestimulados..."

Com o passar dos anos, as referidas discrepâncias trouxeram algumas das dificuldades esperadas e o desnível no rendimento dos diferentes alunos deu origem à necessidade de criação, pela primeira vez elevado, de uma chamada “turma de progressão” em virtude do número de alunos que nos primeiros anos não atingiu o rendimento mínimo esperado. No entendimento de algumas professoras, esse mal resultado seria conseqüência da heterogeneidade do público. Muitos alunos não se encaixavam na idéia compartilhada de que apenas aqueles que têm estabilidade familiar, emocional e econômica podem ser “bons alunos”. De outro lado, professores com opinião divergente desta sentiam a necessidade de rever os valores que estavam sendo priorizados pelo grupo quanto à função da escola e o papel da avaliação. Uma brincadeira de uma das professoras com os que defendiam a primeira posição indica bem o que pensavam os que tinham a segunda posição: “vocês acham que o Romário era primeiro em alguma coisa?!”

Creio que isso demonstra essa outra forma de compreender as dificuldades escolares, ajudando a aliviar o peso de estar nessa turma sobre aqueles que aí estariam.

Um discussão coletiva, em que as avaliações iniciais foram questionadas, levou à redução do número de alunos previsto para essa “turma de progressão’ de 24 para 3, levando as professoras a pensar em novas maneiras de se trabalhar com as diferenças que apareceram, na direção de superar a idealização do perfil do alunado, bem como considerar a necessidade de superação da idéia de perfeição criada por elas, oriunda de um certo modo de pensar a educação que aprenderam durante sua formação acadêmica

Da má leitura inicial a respeito da mudança do sistema de matrícula, o corpo docente passou a buscar a relação do seu trabalho dentro das novas regras. Nem sempre isso ocorre e nem sempre é possível, mas percebemos nessa experiência as vantagens do diálogo interno com as normas, em relação aos valores apriorísticos que levam à rejeição ou à aceitação das mudanças.

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√ Lívia de Almeida Silva: Graduanda em Pedagogia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Bolsista PIBIC/CNPq. Integrante do Grupo de pesquisa: Redes de conhecimentos e práticas emancipatórias no cotidiano escolar, coordenado por Inês Barbosa de Oliveira/Laboratório Educação e Imagem/ProPEd.

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