![]() ano 2 número 13 / agosto 2009 |
||||
|
:: Raquel Goulart Barreto :: < Artefatos Tecnológicos > O ACESSO FÁCIL A MILHÕES DE IMAGENS
Quando entrei na escola, no Interior e há quase cinquenta anos, as imagens disponíveis eram poucas e pareciam todas ilustrações de livros didáticos. Não se confundiam com fotografias, não só porque eram coloridas, mas porque suas cores não representavam as “reais”. Cores de cartazes faziam o mural de cada sala e as contidas nas caixas de lápis também continham as ousadias estudantis. Uma caixa com 24 era um luxo! A fotografia foi entrando aos poucos, primeiro em preto e branco, depois colorida, mas sempre resultante de processos que remetiam a tempos de espera, enquanto não vinha a revelação, no seu duplo sentido. Rápido mesmo só o desenho. Quem, como eu, não tinha esta habilidade, às vezes preferia não arriscar ou se apressava em colocar uma espécie de legenda que “traduzisse” melhor a imagem produzida. Com a aceleração dos progressos tecnológicos, as imagens passaram a estar disponíveis por toda parte e quase no mesmo instante. Não há mais a revelação das fotos no sentido técnico. É possível tirar uma foto de foto já tirada, melhorando a imagem, mesmo sem recorrer a programas como o Photoshop. As imagens podem entrar imediatamente na produção dos textos multimidiáticos. E entram com legendas e todo um entorno, fazendo saltar alguns sentidos e afastando outros possíveis.(1) Como exemplo, vale destacar as duas imagens acima. Enquanto a de cima retrata o engarrafamento em um sentido da pista e o vazio no outro, a de baixo traz uma moça sozinha no meio da rua. Ambas fazem parte de matéria exibida na internet(2), cuja chamada é: “Protesto de professores segue em direção ao Largo do Machado” (o movimento era o inverso), com o subtítulo: “Após confronto de terça-feira (8), passeata ocorreu sem tumulto”.
A matéria parece encoberta por uma cortina de fumaça, como uma das fotos publicadas dois dias antes. Sem a sua devida contextualização, as imagens, mais polissêmicas do que as palavras acabam favorecendo leituras muito parciais, enviesadas. Como, no caso, os textos que as acompanham não esclarecerem o confronto, as suas circunstâncias, os diferentes sujeitos envolvidos e o que está em jogo, até é possível deslocar o protesto para o engarrafamento e para a moça sozinha no meio da pista. Sem dúvida, as imagens estão cada vez mais acessíveis, dentro e fora da escola! E, a despeito de todas as possibilidades de manipulação das modernas câmeras que as capturam e dos softwares posteriormente utilizáveis, as imagens continuam investidas do valor de prova. Assim, se a sua disponibilidade imediata supera as velhas cores “irreais”, nada mais irreal do que a suposição de que o acesso a elas dê conta da realidade e das suas leituras. Se o acesso é cada vez mais fácil, as questões relativas à leitura das imagens, na sua articulação com palavras, sons, movimentos etc., são cada vez mais complexas. . . . . . . . . . . .
√ Raquel Goulart Barreto: Coordenadora do Grupo de Pesquisa Educação e Comunicação (ProPEd).
Referências bibliográficas (ou textuais): • (1)GUIMARÃES, G. C.; BARRETO, R. G. Linguagens na TV. Educação em Revista, n.47, p.41- 54, 2008. Disponível em: www.scielo.br/pdf • (2) http://g1.globo.com/Noticias/Rio Acesso em: 11 set. 2009. |