ano 2 número 11 / maio 2009 

:: Patrícia Baroni ::   < Práticas de Docentes >

MEU PAI E AS INCERTEZAS DO AMANHÃ

“Nenhum relógio diz a tua hora”

Mariana Frank Westhein

Não sei se o que vou dizer agora passa pela cabeça de outras pessoas, mas por muitas vezes fico pensando nas incertezas do que está por acontecer. Especialmente naqueles instantes em que temos que planejar tempos futuros, reflito se tudo o que organizo realmente acontecerá ou não. Pode parecer loucura, mas imagino que qualquer coisa que eu planeje traz consigo uma multiplicidade de possibilidades de não ocorrer e apenas uma de funcionar como pensei. Talvez seja por isso que passo cada minuto fazendo coisas e, na medida do possível, não as deixando para amanhã.

Assim aconteceu nos últimos meses de vida de meu pai. Ele, já com o corpo enfraquecido pelas muitas provações que a vida vai nos impondo, vivia menos um dia a cada dia. E, logo ele... que me ensinava tanto... me amou tanto... A cada exame, consulta médica, internação, tinha a impressão de que meu pai deixava um pouco da vida dele dentro do hospital. Eu pensava em como pegar de volta aquele pedaço de vida que ficou lá e que me parecia, ao olhar a frieza do hospital, que ficava trancafiado em algum local secreto. Era por isso que me movia. Andava com meu pai para todos os lados. Íamos à praia aos domingos, ouvíamos música clássica, assistíamos a filmes antigos que eu jamais pensei existir e ríamos. Ríamos muito. Todos os dias.

Foi numa tarde de abril em que não podíamos passear que encontrei no jornal o anúncio de um evento no Teatro Municipal. A proposta era integrar a voz de compositores e intérpretes consagrados do samba carioca à delicadeza de uma orquestra. A primeira apresentação seria de Paulinho da Viola junto à Orquestra Sinfônica da Petrobrás. Não tive dúvida: precisava ir com meu pai!

A prudência e o ciúme de minha mãe se traduziram em uma lista de obstáculos, afinal, meu pai estava de repouso. Havia vencido mais um infarto e deixado no hospital mais um pouquinho de sua vida. Mas com nada me importava. Não poderia deixar algo assim para depois. Precisava ir e levar meu pai.

Os olhos verdes de meu pai não demonstravam nenhum entrave. Na verdade, os olhos dele sorriam. Eu tinha certeza disso!

Comprei os ingressos. O espetáculo aconteceria no dia primeiro de maio. Meu pai me pediu que engraxasse seu melhor sapato e escolheu com cuidado as roupas que usaria. Nunca havia entrado no Teatro Municipal. Era um sonho prestes a se realizar.

Chegamos com uma hora de antecedência e atravessar a praça da Cinelândia com meu pai foi como nadar contra a correnteza de um rio. Era dia do trabalhador e a Cinelândia era o cenário ideal para todo tipo de reivindicação e manifestação. Foi ao som de discursos sindicais, gritos de camelôs que vendiam cervejas a um real e muitas reclamações de minha mãe que conseguimos entrar no saguão do teatro. Eu tinha a impressão de que meu pai sugava cada detalhe sob a certeza de que nunca mais voltaria àquele lugar. Andávamos devagar pelos corredores e não ouvíamos mais nenhum som. Não conversávamos, apenas nos deliciávamos com tudo aquilo: o chão, as paredes, as janelas...

Encontramos nossos lugares. Foi neste momento que percebemos que o sonho havia começado. Era a vida! Os fragmentos de vida que deixamos escondidos em hospitais podem ser recuperados. E a distribuição é livre! Ela acontece nos locais onde construímos nossos sonhos.

Meu pai, cujos olhos verdes nunca havia visto lacrimejar, derramava lágrimas de satisfação e contentamento. Ao final do espetáculo, ele me abraçou e ainda extasiado com a realização do sonho me disse: agora posso morrer feliz! Muito obrigado!

Alguns meses depois, meu pai faleceu. Ao lado do caixão, eu tinha a convicção de que estávamos conversando; sabia que estávamos em mais uma de nossas tardes na companhia um do outro. Não chorei. Sabia que ele havia morrido feliz.

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√ Patrícia Baroni:

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