ano 2 número 11 / maio 2009 

:: Elaine Neves ::   < Inventando o Futuro >

EU NA UNIVERSIDADE: MAIS UM RESULTADO DO DIREITO À INCLUSÃO.

Já se passaram quatro anos. Eu até poderia imaginar que minha entrada neste lugar denominado universidade pública modificaria a minha vida, mas assim, de uma forma tão radical, jamais! Tenho ultimamente refletido muito sobre as possíveis mudanças que a entrada de jovens negros nas universidades pode ocasionar não somente na vida destes jovens como também na história daquela universidade e do país.

Parece que foi ontem que eu entrava aqui e que - apesar de passar por algumas situações que todos nós negros e negras atravessamos todos os dias, muitas vezes sem nos darmos conta de que estamos sendo vítimas de racismo – vivia uma emoção intensa e cotidiana.

Tenho mãe com ensino médio e pai com fundamental incompleto e fui compreendendo no cotidiano, aos poucos, a importância da política de cotas na universidade. Optei por concorrer pelas reserva de vagas para negros e me surpreendi em saber que muitos dos que assim ingressassem receberiam uma bolsa para que pudessem se manter na universidade. Era a garantia de que, pelo menos, durante o primeiro ano, eu conseguiria me manter no curso. Isso para mim, até aquele momento era impensável e, por isso, hoje, tenho a certeza de que pensar a permanência dos jovens afrobrasileiros nas universidades seja imprescindível.

Com o passar dos períodos, eu sentia que iam aumentando meus argumentos a favor das cotas, apesar da luta sempre ter sido (ainda é!) muito grande. O debate fora da universidade tomava vulto e todos os argumentos contrários iam ficando pueris quando eu via os colegas que entraram comigo – e os outros que foram ingressando depois - crescendo e fazendo crescer o meu curso. O debate era acadêmico e político. Palestras, seminários, debates, disciplinas e grupos de pesquisa. Um leque de ferramentas contribuiu para a (des)construção do que antes parecia já estar determinado. Consegui compreender que

os preconceitos estão no tecido social, na cultura, nos livros didáticos, em nossos imaginários e representações coletivas, em nossa psicologia do relacionamento independente da classe social a qual pertencemos. É nesses terrenos privilegiados que devemos lutar para transformar as mentes e as consciências individuais e coletivas. (MUNANGA, 2007)

No curso de Pedagogia da UERJ descobri um outro universo, outras histórias, outras verdades. O significado da palavra “diversidade” passou a fazer sentindo na medida em que a convivência entre os “diferentes” tornou-se essencial ao aprendizado sobre o valor das interações sociais e, principalmente, sobre o quanto nós, negros e negras, temos a contribuir neste espaço, escrevendo uma outra história da/naUERJ.

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√ Elaine Neves: Pedagoga formada pela UERJ. Membro do grupo de pesquisa: Narrativas, Memórias e Atualização Identitária em Contextos Educativos, do Laboratório Educação e Imagem, coordenado por Mailsa Passos.

 

Referências bibliográficas (ou textuais):

• MUNANGA, Kabengele. Considerações sobre as políticas de Ação afirmativa no Ensino Superior. In: PACHECO, Jairo Queiroz; SILVA, Maria Nilza da (Org.). O negro na universidade: o direito à inclusão. Brasília, DF: Fundação Cultural Palmares, 2007.

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