ano 2 número 11 / maio 2009 

:: Thais Barcelos ::   < Lembranças de Escolas >

MEMÓRIAS QUE GERAM MEMÓRIAS

O que venho escrever aqui não são propriamente ditas as minhas memórias. Entretanto foram memórias que me influenciaram na minha escolha profissionalpessoal, já que não entendo uma separada da outra. Venho de uma família de professores. De pessoas que têm como formação profissional o magistério e viveram/vivem grande parte da sua vida nesse lugar chamado escola, outras que não tiveram nenhuma preparação para isso, mas por algum motivo passaram por sala de aula e há, até, aquela que nunca teve qualquer envolvimento com essa profissão, mas que morre de vontade de adentrar nesse espaçotempo. Ou seja, muitas são as conversas nos almoços de domingo que narram às memórias relacionadas ao espaçotempo da escola, de um lado e outro da família.

Porém hoje, incentivadas pelas conversas que sempre tivemos sobre educação, venho contar um pouco sobre a trajetória e as memórias de Célia Figueiredo da Silva, minha avó materna.

Liguei para ela, mencionando que queria conversar para que ela contasse suas lembranças do tempo da escola. Expliquei que essa conversa poderia gerar um futuro artigo e que, por isso, precisaria de fotografias que ajudassem a mostrar essas memórias.

Quando cheguei dois dias depois em sua casa. Ela já estava toda preparada, já tinha separado uma série de fotografias e estava passando a limpo um texto sobre o episódio que tinha elegido como um dos mais importantes de sua vida.

Várias foram às experiências em atividades extracurriculares, mas a que mais marcou pela eficiência e criatividade de professores, alunos e comunidades foi o projeto “Não há tempo a perder” (trecho retirado do pequeno texto que me entregou).

Esse projeto foi realizado quando era diretora na Escola Municipal Bolívar. Era um projeto proposto pelo governo de Faria Lima (1975 a 1979) a algumas escolas para incentivar a integração escola-comunidade. Assim, o grupo de professores e funcionários da escola organizou visitas às indústrias, casas comerciais, parques, museus, observando e tirando fotos da arquitetura dos prédios para que os alunos comparassem as mudanças do bairro no decorrer do tempo. Os professores formavam grupos e saiam a campo, para que os alunos visitassem, pesquisassem e entrevistassem as pessoas do bairro no qual se situava a escola.

No final desse projeto foi realizada uma exposição para que os alunos divulgassem suas pesquisas à comunidade. Com muito orgulho, ela nos contou que, no momento da exposição, muitos representantes das diversas indústrias e casas comerciais foram prestigiá-la, elogiando o trabalho, o comportamento e o interrese de cada aluno.

Apesar de muitos elogios feitos a esse projeto, minha avó fez questão de ressaltar que mesmo tendo origem em um projeto governamental, o grande esforço e trabalho foi feito pela comunidade interna da escola.

Essa fala e a narrativa feita sobre o desenvolvimento do projeto lembrou-me discussões que temos no grupo de pesquisa nas quais questionamos os projetos padronizados muitas vezes impostos as escolas, mas os movimentos que vemos, nos cotidianos, para que eles ganhem uma cara local, já que são modificados, ajustados e criados, verdadeiramente, pelas pessoas que estão neles envolvidas.

Por isso, a minha escolha de pesquisar as memórias, pois acredito que é necessário tentar narrar à diversidade dos cotidianos, com o apoio nelas. E vindo de encontro com essa idéia ALVES (2008) nos diz que é preciso escrever uma história da escola brasileira na qual o que conta é a experiência cotidiana de seus praticantes, dentro e fora dela, em todas as redes de conhecimentos e significados nas quais ‘aprendemosensinamos’ (p.133).

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√ Thais Barcelos: Aluna do curso de Pedagogia da UERJ, bolsista PIBIC/CNPq, no Laboratório Educação e Imagem, atuando no GRPESQ ‘Currículos, redes educativas e imagens’, sob a coordenação de Nilda Alves.

 

Referências bibliográficas (ou textuais):

• ALVES, Nilda. Nós somos o que contamos: a narrativa de si como prática de formação. In: DE SOUZA, Elizeu Clementino e MIGNOT, Ana Chrystina. Histórias de vida e formação de professores. Rio de Janeiro: Quartet: FARPERJ, 2008: p.131-145.

GRUPOS PARTICIPANTES:   01 |  02 |  03 |  04 |  05 |  06 |  07 |  08 |  09 |  10 |  11 |  12 |  13 |  14 |  15 |  16 |  17 |  18 |     [TODOS]    ISSN: 1982-825X