![]() ano 2 número 11 / maio 2009 |
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:: Carlos Eduardo Rebuá Oliveira :: < Artefatos Tecnológicos > HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NA SALA DE AULA: TECNOLOGIA, SUBJETIVIDADE E DISCURSO HEGEMÔNICO. "Antes de entender de palavras, minha cabeça já transava imagens." (Ziraldo)
Quando ouvimos a expressão “tecnologia da informação e da comunicação (TIC)” é quase automática a construção imagética de uma máquina fotográfica ou de um microcomputador. O termo “tecnologia” remete imediatamente à máquina, circuitos integrados. Em se tratando das TIC’s na educação, sobretudo devido às recentes políticas públicas de “valorização” do docente no Estado do Rio, laptops vêm à mente sem esforço, corroborando com o mordaz marketing educacional privado que associa mecanicamente melhoria da aprendizagem com “mais tecnologia”. Se compreendemos tecnologia como meio, instrumento, incorporamos outras possibilidades à pré-noção que temos do termo, sendo as histórias em quadrinhos (hq’s) uma dessas possibilidades, ainda que pouco lembrada e apenas recentemente valorizada. Na contramão da idéia determinista da tecnologia em sala de aula como sinônimo de otimização de resultados, pode-se, dialogando com o viés freireano acerca da prática educativa, utilizar as hq’s como “possibilidade”, como ferramenta não-acabada, como ponto de partida e não de chegada, permitindo de maneira lúdica a apreensão de conteúdos muitas vezes ininteligíveis. Entendida como “brincadeira”, as hq’s, apesar de existirem há mais de um século, com origem no eixo Estados Unidos-Europa, somente há pouco tempo vêm sendo utilizadas por professores em sala de aula, nos livros didáticos, tornando-se recentemente objeto de estudo acadêmico.
As hq’s possibilitam o diálogo com as mais distintas faixas etárias e classes sociais, além de permitir infindáveis mediações, reflexões e vieses. A epígrafe de Ziraldo corrobora com a noção de imagem como linguagem singular e polissêmica que valoriza a subjetividade e atua como significativa memória. Quem não se lembra de seus heróis da infância? Como esquecer o cheiro dos gibis ou a ansiedade pelo novo Almanaque da Turma da Mônica? Como era divertido quando a professora pedia para construirmos uma hq ou quando o livro de Português tinha uma tirinha da Mafalda pra gente interpretar! Cabe ressaltar que as hq’s enquanto potenciais “tecnologias da sala de aula” não operam de maneira dissociada do mundo real; não atuam como “receita de bolo”, que descoladas da realidade objetiva e dos atores sociais que a engendram (cartunistas) e a interpretam (professores, alunos), permitam a plena realização do processo de ensino-aprendizagem. A falácia do “conhecimento ao alcance de todos”, da sociedade da informação e seu “mar” que transborda sobre indivíduos náufragos e à deriva (BARRETO) representa uma das mais incisivas ideologias da contemporaneidade, hegemonizando os discursos (políticos, midiáticos, educacionais, etc.) e impregnando com a lógica do mercado questões relativas ao ensino. Na sociedade capitalista contemporânea, sob a égide do neoliberalismo, que a tudo nega (a História, a territorialidade, os antagonismos de classe) e que promulga a democratização do conhecimento através do “livre acesso” à “informação”, reafirmar a subjetividade e a criatividade como lócus privilegiado do saber é tarefa premente de todo educador que tenha na emancipação dos indivíduos e na construção de um outro mundo possível, o norte de seu trabalho.
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√ Carlos Eduardo Rebuá Oliveira: Integrante do Grupo de pesquisa Educação e Comunicação coordenado por Raquel Goulart Barreto.
Referências bibliográficas (ou textuais): • BARRETO, Raquel. Reflexões acerca de informação, conhecimento, história e ensino. In: Ensino de história: sujeitos, saberes e práticas / Ana Maria F. C. Monteiro, Arlette M. Gasparello, Marcelo de S. Magalhães, orgs. Rio de Janeiro: Mauad X: FAPERJ, 2007. • FREIRE, Paulo. Pedagogia dos Sonhos Possíveis. In: Pedagogia dos sonhos possíveis / Paulo Freire; Ana Maria A. Freire, orgs. São Paulo: Editora UNESP, 2001. |