![]() ano 3 número 18 / agosto 2010 |
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:: Kezia Rodrigues Nunes :: < Práticas de Docentes > BRINCADEIRAS DE CRIANÇAS E ADULTOS: ESTRATÉGIAS E TÁTICAS NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA Lugares e espaços, estratégias e táticas. Certeau (1994) permite que a problematização da rede de relações complexas que envolvem saberes, fazeres e poderes no cotidiano escolar seja percebida numa tensão entre submissão, acordos e possibilidades criativas de subversão. Tratamos, nesse texto, de negociações possibilitadas na experiência entre adultos e crianças que, por não terem sido planejadas, carecem de maior sensibilidade para compreender o que poderia ser identificado como erro, absenteísmo, recusa, travessura. Tanto a relação entre estratégia e tática como a distinção entre espaços e lugares, propostas por Certeau (1994), ajudam-nos a perceber como as operações escolares são produzidas e como os sujeitos agem nas fissuras causadas pela sua resistência. O lugar é organizado por uma série de estratégias manipuladas por relações de poder. Nessa relação, e não em oposição, o espaço é identificado pelas operações táticas, pelas práticas e por movimentos que fogem ao controle. Se as regras são organizadas estrategicamente, as táticas representam a capacidade de desviar sorrateiramente. O espaçotempo vivido na aula de Educação Física pelas crianças de 5 anos de idade do Jardim II nos remete a essa tensão, ao serem definidas por um lugar (o pátio) e por um tempo (50 minutos). No CMEI da Amizade, nome fictício dado a uma instituição localizada no bairro São Pedro I em Vitória/ES, duas turmas (aproximadamente 40 crianças) eram reunidas pelas duas professoras de Educação Física, que buscavam se fazer ouvir e também compreender as crianças. As professoras buscavam conhecer e valorizar as sugestões cotidianas das crianças, o que nos levou a brincar de pique alto, baixo, bóia, bola, gelo e corrente. As regras se misturavam, as crianças se embolavam, e às vezes o prazer estava em correr, em ter mais de um boiador na brincadeira, em não boiar ninguém para continuar em evidência, em criar outras brincadeiras concomitantemente, em fugir para outros espaços, em apreciar os colegas e as professoras brincando. Impossível perceber homogeneidade numa aula com tantas crianças, com formas diferentes de se relacionar com a brincadeira e com as pessoas. Nesse turbilhão, como definir quem está com o pique? Quem é o boiador? Foram muitos os movimentos que atravessavam as aulas, as crianças e as professoras. Nessas experimentações, surgiu o pique-chapéu. A criança que estivesse com o chapéu estaria com a bóia. Uma forma de definir claramente esse lugar de pegador. Contudo, no momento da brincadeira, as crianças criaram outros movimentos, que golpearam as regras estabelecidas. Ninguém queria tirar o chapéu. Quem estava como boiador, acabava fugindo dos colegas, em vez de correr atrás deles. Evidenciar o que nos divertia também nos remete ao que nos trazia ansiedade e inquietação a respeito dessa multiplicidade de comportamentos em uma aula, cujo modelo muitas vezes se afastava do que vivíamos cotidianamente, por fugir do controle. Os nossos objetivos foram atingidos? Conseguimos compreender as necessidades das crianças? Porque todos queriam pegar o chapéu? Em um modelo conformado pelos adultos, fomos interpeladas pela criatividade das crianças, que não se deixam aprisionar, que nos escapam e que nos instigam a problematizar o modelo homogeneizador de escolarização. Ao modo de Certeau (1994), é a relação entre as crianças, entre os adultos, e entre as crianças e os adultos que nos desperta por escapar de forma silenciosa a toda a conformação. . . . . . . . . . . .
√ Kezia Rodrigues Nunes: Doutoranda em Educação pelo PPGE/UFES. Pesquisadora do Proteoria – Instituto de Pesquisa em Educação e em Educação Física.
Referências bibliográficas (ou textuais): • CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. |