ano 3 número 18 / agosto 2010 

:: Maria Riziane Costa Prates ::   < Culturas e Imagens >

O PATINHO FEIO, A ESCOLA E O CURRÍCULO

Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.

FERNANDO PESSOA

Nas idas e vindas do fazer pesquisa em uma escola da periferia do município de Vitória-ES, deparei-me com uma turma de 2ª série com 28 crianças, onde estabelecemos uma conversa a partir de questões sobre o documento do MEC “Indagações sobre currículo”- proposição do grupo de pesquisa “Currículo, cotidiano, culturas e redes de conhecimento” da Universidade Federal do Espírito Santo.

Nessa interlocução, ao fazer algumas indagações - Vocês sabem por que a escola está ensinando esses conteúdos que vocês estão estudando? O que vocês gostariam de aprender na escola? -, uma criança chamou minha atenção, dizendo rapidamente: “eu queria aprender a ler, ser estudante e trabalhar, não aprendi a ler até agora porque faço muita bagunça”. Essa fala remeteu-me aos nossos currículos, questionados, pensados, sempre uma interrogação, uma busca entre eternas incertezas.

Enquanto nos preocupamos no quê ensinar, como ensinar e para quê ensinar, como sujeitos dotados de uma vivência linear, cartesiana, legado da ciência moderna em nossas vidas, Foucault (conforme explicitado por VEIGA-NETO, 1995) nos abre caminho para implicações bem mais instigantes e desafiadoras, como que precedendo à lógica que se fez hegemônica durante muito tempo e ainda o faz.

A preocupação dele se dirige a como nos tornamos o que somos e ao porque nós queremos o que queremos? Essa criança, na sua fala, nos aponta um desejo, uma intenção de entrada rápida no mercado de trabalho e uma autoculpabilidade pelo seu “fracasso” escolar. Indagamos então, como a escola se constituiu ao longo da história nesta escola que temos hoje? Ao final da conversa com as crianças, solicitei que desenhassem seu auto-retrato. Curioso foi essa mesma criança atribuir ao seu desenho o título de “patinho feio”, explicando que o nome se deu por ela ser diferente mesmo: os colegas a acham diferente e ela também se acha diferente.

A diferença e a diversidade existem e são positividades. O problema, então, está no regime de verdade e universalidade constituído na escola ou está nos indivíduos que não se adaptam a esse regime? Como chegamos a esse ensinar/aprender que temos hoje?

Toda época organiza sua utopia, seus sonhos, isto é, seu olhar sobre o certo, o errado, o belo, o feio, o que convém fazer, como convém agir. Nesse aspecto, fazer surgir uma alteridade recorrente do currículo, da escola e das práticas instauradas na mesma e na vida dos sujeitos que a compõem, significa também fazer emergir o que todo olhar sobre criança, currículo, escola, supõe de utopia, sonhos e concepções. Importa pois, problematizar sempre...

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√ Maria Riziane Costa Prates: Professora das séries iniciais do Ensino Fundamental do município de Vitória – ES e da Educação Infantil no município de Serra – ES. Mestranda em Educação – PPGE/UFES.

 

Referências bibliográficas (ou textuais):

• CARVALHO, Janete Magalhães. Pensando o currículo escolar a partir do outro que está em mim. In: FERRAÇO, Carlos Eduardo (org.). Cotidiano escolar, formação de professores(as) e currículo. São Paulo: Cortez, 2008. p. 94 – 111.

• DUSCHATZKY, Sílvia & SKLIAR, Carlos. O nome dos outros. Narrando a alteridade na cultura e na educação. In: LARROSA, Jorge & SKLIAR, Carlos (orgs.). Habitantes de Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

• VEIGA-NETO, Alfredo j.(org.).Michel Foucault e educação: há algo de novo sob o sol?. In: Crítica pós-estruturalista e educação. Porto Alegre: Sulinas, 1995.

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