![]() ano 3 número 18 / agosto 2010 |
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:: Talita Vidal Pereira :: < Culturas e Conhecimentos Disciplinares > INTERDISCIPLINARIDADE: RISCOS E DESAFIOS. A interdisciplinaridade tem ganhado destaque no discurso educacional principalmente a partir da compreensão de que os problemas contemporâneos ganham complexidade e a sua resolução escapa aos limites de uma única disciplina ou área do saber. Nesta perspectiva, a interdisciplinaridade tende a ser uma perspectiva de organização curricular bem aceita no meio acadêmico (ZIBAS, 2005). Vou além, afirmando que entre os educadores em geral existe um sentimento de desconforto com a organização marcadamente disciplinar do currículo, principalmente na medida em que tende a se consolidar uma concepção de currículo como espaço de produção de significados sociais. No entanto, é fato que esse desconforto também expressa a impotência daqueles que, insatisfeitos com a disciplinarização, esbarram em constrangimentos que dificultam a realização das atividades de ensino em uma perspectiva interdisciplinar. Esses constrangimentos têm natureza institucional, que dizem respeito aos mecanismos próprios de funcionamento interno da escola, na medida em que a disciplina continua sendo uma tecnologia fundamental na organização da escola controlando sujeitos, espaços e tempo (LOPES, 1999). Mas também têm natureza social e política, dado que uma disciplina é mutuamente influenciada por fatores de natureza interna, que dizem respeito ao saber de referência, aos critérios epistemológicos, bem como aos interesses diversos das comunidades científicas e disciplinares. E por fatores externos, que dizem respeito às demandas provenientes da dinâmica social, política e econômica (LOPES, Idem). Macedo e Lopes (2002) afirmam que os projetos interdisciplinares não podem apagar as fronteiras entre as disciplinas escolares. Fourez (2003) corrobora com essa afirmação ao enfatizar que a defesa da interdisciplinaridade não deve significar desconsiderar a especificidade das disciplinas. O autor pensa na interdisciplinaridade como uma estratégia em que diferentes campos de conhecimento contribuem para esclarecer uma situação concreta, mantendo as suas particularidades. Em outro trabalho Fourez (1995) alerta para o risco da interdisciplinaridade, entendida como processo de integração entre diferentes campos do conhecimento para além das disciplinas particulares, resultar na constituição de uma superciência, um novo discurso que se pretende universal sobre um objeto específico do conhecimento. Para ele esse movimento levará a um novo paradigma e a uma nova disciplina específica que mantém relação, mas é diferente das disciplinas iniciais. A geografia, a ecologia, a educação ambiental, são alguns exemplos de disciplina ou campo disciplinar que expressam esse fenômeno. As considerações desses autores não podem ser percebidas como novidades, porém, elas permanecem atuais no debate educacional contemporâneo. Trabalhar a interdisciplinaridade em uma perspectiva que não leva em consideração os conflitos existentes entre as diferentes disciplinas e que implicam relações de poder pode significar o aprofundamento do processo de disciplinarização, entendida como fragmentação do conhecimento, principalmente se, como alerta Zibas (2005), ela implicar, como defendem alguns, na ação de um único professor, que passa a ter que ensinar a disciplina numa perspectiva interdisciplinar, o que pressupõe uma formação polivalente que não leva em consideração as especificidades dos diferentes campos disciplinares e pode acontecer em prejuízo de uma formação conceitual sólida. Essas breves considerações são importantes para pensarmos os interesses envolvidos na organização disciplinar, e que sustentam a sua hegemonia, e os diferentes significados que são atribuídos à ideia de interdisciplinaridade e que, apesar do aparente consenso, podem atender a projetos muito diferenciados. . . . . . . . . . . .
√ Talita Vidal Pereira: Doutoranda Proped-UERJ. Professora substituta UERJ.
Referências bibliográficas (ou textuais): • FOUREZ, Gérard. Crise no ensino de ciências? Investigações em ensino de ciências. v. 8, n.2, p. 109-123, 2003. • ______. A construção das ciências. Introdução à filosofia e à ética das ciências. São Paulo: UNESP, 1995. • MACEDO, E., LOPES, A. C. A estabilidade do currículo disciplinar: o caso das ciências. In: LOPES, A. C., MACEDO, E. (orgs.). Disciplinas e integração curricular: história e políticas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p. 73-94. • LOPES, Alice C. Conhecimento escolar: ciência e cotidiano. Rio de Janeiro: UERJ, 1999 • ZIBAS, Dagmar M. L.. A reforma do ensino médio nos anos de 1990: o parto da montanha e as novas perspectivas. Revista Brasileira de Educação [online]. 2005, n.28, p. 24-36. |