![]() ano 3 número 18 / agosto 2010 |
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:: Doris Regina de Barros :: < Culturas Locais > O MÁGICO E O IMAGÉTICO: NARRATIVAS DA AFROBRASILIDADE NA APROPRIAÇÃO DO ANCESTRAL PELO CONTEMPORÂNEO
Ao propor um procedimento que designa por sociologia das ausências, Boaventura de Souza Santos nos convida a investigar experiências sociais invisibilizadas, que demonstram que o presente pode se estender para além das fronteiras desenhadas pelo capitalismo global através de seus cânones científicos e estéticos (2008, p. 102). Penetrando pelas brechas das fortificações epistemológicas hegemônicas existentes, um grupo de jovens artistas tem na contação de histórias seu eixo de trabalho. Inspirados na figura dos griots, agentes culturais da tradição oral africana, estes jovens integrantes da organização não governamental Cia de Jovens Griots da Baixada Fluminense, produzem uma multiplicidade de poéticas no entrelaçamento de elementos da cultura africana e afrobrasileira com relatos de crônicas jornalísticas, figuras fantásticas dos cordéis nordestinos e misteriosas personagens do folclore brasileiro.
Na reapropriação do ancestral pelo contemporâneo, apresentam suas tessituras estéticas e narrativas entremeadas pelas mais variadas linguagens artísticas, incluindo artes circenses. Os espaços de apresentação vão desde palcos convencionais no estilo italiano, centros culturais ou salas de aulas de escolas públicas. Os Jovens Griots encenam de pequenas tragédias do cotidiano, relatadas pelos moradores da comunidade, até os grandes dramas humanos contidos, por exemplo, na obra de Shakespeare. Promovem rodas de contação de histórias para os mais diversificados públicos, oficinas de formação continuada com educadores, vídeos sobre a memória do lugar com relatos dos anciãos de sua comunidade e, no ano de 2009, com patrocínio do UNICEF, realizaram a I Jornada de Educação para a Igualdade Racial da Baixada Fluminense, no Sesc de São João de Meriti, município da região metropolitana do Rio de Janeiro, onde está localizada a sede da Cia: a Casa de Griots. O patrocínio do UNICEF foi obtido através da vinculação do grupo a uma organização não governamental sediada na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, da qual era uma espécie de subprojeto. Atualmente, com a obtenção da autonomia jurídica, a Cia sobrevive com recursos captados pelas oficinas oferecidas em sua sede, da arrecadação com as bilheterias dos espetáculos e por outras iniciativas. A questão do auto-financiamento da Cia vem se constituindo em grande nó para o prosseguimento das atividades, pois a pressão familiar pelo exercício de atividades remuneradas e mesmo aspiração pessoais, empurram os jovens a conciliar atividade remunerada e estudos, limitando o tempo de dedicação ao grupo. A percepção do pertencimento étnico como um dos fatores determinantes de suas restrições sociais influiu na opção desses jovens em incorporar as contribuições dos povos africanos ao trabalho da Cia e à definição do viés narrativo por onde eles, na maioria afrodescendentes, decidiram encaminhar suas questões e inquietações. Afinal, qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós? (BENJAMIN, 1994, p. 115). Ao redefinirem os rumos de seu trabalho os sujeitos desta Cia, possivelmente, delinearam novos contornos na sua formação identitária, descolando-a dos limites impostos pelo etnocentrismo, se potencializando a partir de suas elaborações e releituras estéticas da afrobrasilidade. . . . . . . . . . . .
√ Doris Regina de Barros: Pedagoga do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), Mestranda em Educação do ProPEd/UERJ, especialista Arte e Educação (UCAM), integrante do grupo de pesquisa Narrativas, Memórias e Atualização Identitária em Contextos Educativos.
Referências bibliográficas (ou textuais): • BAKTHIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. • BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I: arte e política; magia e técnica. 12º ed. São Paulo: Brasiliense, 2010. • FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. 2º ed. São Paulo: Global, 2007. • FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. • GILROY, Paul. O Atlântico Negro; tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Ed. 34, 2001 • HALL, Stuart. Da diáspora – identidades e mediações. Belo Horizonte: Editora UFMG; Representação da UNESCO no Brasil (Humanitás), 2003. • SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 2° ed. São Paulo: Cortez, 2008. • TRINDADE, Azoilda Loretto. O projeto Pedagógico da/na escola: capilarizando a temática das africanidades brasileiras. Rio de Janeiro: CEAP, 2007. |