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De consumidores a leitores críticos

Gabrielli Lima Araújo Silva

 

Apontada em pesquisas como uma das principais deficiências do estudante brasileiro, o ato de ler o mundo é fundamental, dentro e fora da escola. Nesta, como ficam as imagens, sons, formas, cores e outras possibilidades às vezes não cogitadas, podadas pelo texto escrito?

Muitas vezes o professor interessado pergunta-se como escapar à rotina de leitura, feita sempre do gesto de ler silenciosamente ou em grupo, seguido da interpretação do texto. É claro que esta atividade é útil e necessária àqueles que buscam a convivência com a escrita, mas marca um paradoxo principalmente quando se pretende que o aluno vivencie o texto, crie hipóteses, desfechos, possibilidades, a partir de indícios textuais e se estendendo à sua experiência, valores e repertório cultural.

Escola do Município, sala de leitura, oito crianças, quarto ano, oito horas da manhã. Mestres, doutores, orientadora, colegas da graduação presentes e eu a frente da turma. Nas mãos um saco vermelho. Dentro dele, uma boneca de pano, um carrinho de madeira, um celular e muitas possibilidades de abordagem. Pedi a ajuda dos alunos na descoberta.

Rafaela, à minha esquerda, pôs logo as mãos no saco e trouxe aos olhos dos colegas, em primeiro lugar, a clássica boneca de pano. “Uma boneca de pano, que linda!”, “que fofa!”, foram algumas reações. Matheus foi logo se colocando como o próximo a tirar alguma novidade daquele saco, já menos cheio. Pôs as mãos e trouxe o carrinho de madeira, bem feito, rico em detalhes. “Um carrinho de madeira! Legal!”, “Caramba!”, “Meu pai tinha um desses...”. Por último, não menos importante, eu mesma tirei do saco aquele celular “obsoleto”, mas ainda em uso. Risos incontidos, gargalhadas aguçadas: “Que velho!”, “É seu, professora?”, “Ele tira foto?” “Tem MP3?”.

Já percebeu que a tecnologia tem um ciclo de vida curto, quase como um prazo de validade? Compramos um celular de última geração e pagamos uma fortuna por ele. Algum tempo depois, percebemos que há um novíssimo aparelho no mercado, com mais funções e pelo mesmo preço do nosso, que ficou mais barato. E não é apenas com telefones móveis que isso acontece, mas basicamente todo o tipo de equipamento eletrônico, brinquedos, roupas, carros, enfim, bens de consumo... Quando o assunto é comprar, uma coisa é certa: todas as coisas possuem um prazo de validade.

Hoje, todos são impactados pelas mídias de massa e estimulados a consumir de modo inconsequente. As crianças não ficam fora dessa lógica e sofrem cada vez mais cedo as consequências relacionadas aos excessos da vida para o consumo. (BAUMAN, 2008). Consumismo, noções de novo e velho, o que fazemos com o que “já não serve mais”, “precisamos no nosso dia-a-dia tanta tecnologia?” “Com a boneca de pano não dá para brincar?” Uma série de hipóteses foi levantada a partir dos três itens que tínhamos no saco vermelho, e a tarefa era escolher um objeto e produzir uma peça publicitária para convencer alguém a comprá-lo.

No intuito de fazê-los “experimentar o outro lado”, vendendo o carrinho ou a boneca que já não são mais brinquedos atuais, assim como o celular, a principal intenção era propiciar reflexões sobre o nosso cotidiano, para enfrentar o desafio de lidar com as transformações inseparáveis dos processos de produção de conhecimento na contemporaneidade. O bacana é criar um contexto que, aguçando a percepção do aluno/leitor, permita que ele descubra o que está posto, mas não escrito - pressuposto e implícito; enfim, que descubra no texto mais do que já sabia.

REFERÊNCIAS

– BAUMAN, Z. Vida para consumo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

 

 

sobre o(a) autor(a):

Estudante de Pedagogia, Bolsista de Iniciação Científica do CNPQ, participante do Grupo de Pesquisa Educação e Comunicação.