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Um fusca amarelo

Roberto Conduru

 

O quadro ao lado poderia ter sido feito em muitas partes do mundo.

Primeiro, por ser o Volkswagen Fusca um automóvel de presença quase global. Foi fabricado, desde a segunda metade da década de 1940, na Alemanha, onde vinha sendo idealizado há algum tempo, até 2003, no México, onde foi produzido o último exemplar do veículo. E foi consumido largamente pelo mundo.

Depois, pelo modo como o quadro foi feito. É uma tela, um dispositivo de representação criado na Europa. Ao vê-la pode-se pensar que quem a pintou pode ter relações com o a prática do grafite urbano, que também é quase onipresente mundialmente hoje. Os traços indicam que foi feito pela mão de alguém, de um modo um tanto espontâneo. E isto pode ser conectado também ao Expressionismo, um dos movimentos artísticos do modernismo que, a partir da Europa ganhou boa parte do mundo. Os tons puros usados - branco, preto, amarelo, vermelho e azul - são as cores da paleta de outro movimento artístico modernista europeu, o De Stjil, também conhecido como Neoplasticismo, que pretendeu, a partir da Holanda, entre os anos de 1917 e 1924, criar uma estrutura plástica universal, conjugando elementos plásticos ortogonais (ausentes nessa tela) e seis cores: amarelo, vermelho, azul, branco, preto e cinza.

A visão frontal também mostra, dentro do automóvel, cinco cabeças humanas, cujas representações algo esquemáticas podem levar a pensar que são apenas homens. Delineia-se uma cena: pessoas transitando com o fusca. É, portanto, uma obra que fala da vida cotidiana a partir da segunda metade do século XX.

Contudo, se informarmos que a imagem fotográfica foi feita em Porto Novo, capital do Benim, em fevereiro de 2010, no ateliê do artista plástico Gérard Quenun, ganha-se maior precisão e acesso a outros sentidos. Faz pensar, por exemplo, nos táxis coletivos, com muitos, muitos passageiros, que são comuns em todo o Benim.

E faz pensar como as obras e intervenções de Gérard Quenun, como as de outros artistas beninenses e africanos, conjugam o glocal, neologismo resultante da fusão de global com local, emitindo dicções e discursos particulares nos processos de institucionalização internacional em que estão incorporados.

No caso da tela em questão, a sintaxe usada é a característica na prática artística atual, pois Quenun adota procedimentos plásticos e conceituais usuais há algum tempo. Os sintagmas - objetos, figuras e temas – também são de alcance internacional, ainda que tenham sentidos locais.

Desse modo, Quenun reverte as expectativas existentes de que os artistas africanos falem de questões locais conjugando, com forte sotaque, a linguagem pretensamente internacional da arte hoje. Pois ele fala de temas de alcance mundial e sem sotaque. A equação que demanda e/ou obriga à procura do glocal é por ele subvertida, embora não abandonada, com infiltrações que corroem as expectativas ocidentais e locais quanto ao que deva ser a arte contemporânea feita a partir do Benim, da África. Assim, as ações e obras desse artista implicam revisões da crítica e da historiografia da arte, tanto a da África quanto a mundial, desde a modernidade e mesmo antes. Questionamento que é indissociável de reflexões que esses artistas abrem sobre questões políticas de alcance local e mundial (usos de recursos naturais disponíveis, consumo no regime pós-industrial), bem como sobre práticas culturais regionais (relações de gênero, indumentária, cultura material), explorando articulações entre economia, indústria cultural e imaginário na conjuntura política contemporânea.

LEGENDA(S) DA(S) FOTO(S)

• – Gerard Quenun. (sem título), Porto Novo, 2010. Fotografia digital Roberto Conduru.

 

 

sobre o(a) autor(a):

é historiador da arte, professor no ProPEd e no PPGARTES, diretor do Instituto de Artes da UERJ, membro e atual presidente do Comitê Brasileiro de História da Arte, pesquisador pró-cientista da UERJ, Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ e bolsista de Produtividade do CNPq.