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Da informática ao risco do silêncio Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática. Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Os versos do poeta matogrossense Manoel de Barros me fizeram lembrar da recente entrevista do cartunista argentino Joaquin Salvador Lavado (Quino) concedida à Folha de São Paulo, enviada por um amigo e pesquisador da Mafalda, ilustre personagem criada na década de 60. Quando perguntado sobre as tecnologias e a juventude, Quino responde: “eles já nasceram com ela, o problema é quem conhece outra forma de comunicação”. Com Quino e Barros não só começo este artigo, como começo (ou recomeço) algumas inquietações. Penso com eles sobre a velocidade das mudanças ocorridas na nossa sociedade e na incrível capacidade invencionática do homem. Do Personal Computer ao Netbook não se passaram nem 30 anos. Do que esses senhores-artistas do nosso tempo estão nos falando? Da falta de “conversa olho no olho”? Da escassez de “conversa na janela”? Será que as novas gerações, nossos filhos, nossos alunos não “saberão” se comunicar “olhando no olho”? Suas janelas serão telas? Olharão eles, para uma tela de computador e “verão” os olhos dos amigos, dos professores, dos seus pais?
A imagem acima ilustra uma notícia no portal do MEC sobre a distribuição de computadores para alunos da rede pública de 10 estados brasileiros, é o programa UCA – Um Computador por Aluno. Este programa é mais uma etapa da política governamental voltada para a inclusão digital. Depois da implementação dos Laboratórios de Informática nas escolas brasileiras e da distribuição de laptops para os professores, agora é a vez dos alunos. Não que essa ação já não tenha ocorrido em alguns municípios, a diferença atual é a abrangência. O objetivo do governo é atingir até o final de 2010 a meta de 150 mil computadores para alunos da rede pública. Diante de tantas mudanças nas relações dentro (fora) da escola, do olhar através da tela, recordo de outro senhor. Quando eu estava na graduação do curso de Pedagogia assisti a um vídeo de Paulo Freire dando aula na USP. Fiquei impressionada! Sua maestria com as palavras, a maestria do seu olhar para os alunos... Penso que, tal qual Quino e Barros, senhor-artista do seu tempo, do nosso tempo, Freire não foi um professor-da/na-informática. Foi um professor do olho no olho. Nesse contexto da informática e da palavra, Barreto, ao tratar das tecnologias na política nacional de formação de professores a distância, nos chama atenção, para o uso da palavra “tecnologias”, que “tende a soar como uma espécie de chave-mestra capaz de abrir todos os caminhos e portas: solução mágica para os mais diversos problemas.” (2008, p.921). E, pensando como Manoel de Barros sobre a palavra, inquieto-me como professora: será que a palavra tecnologia veio para compor o silêncio da conversa olho no olho? E as políticas educacionais que incorporam as tecnologias como “solução mágica” para os problemas educacionais, irão provocar silêncios nas relações entre professores e alunos? REFERÊNCIAS – Araujo, Tarso. “Criador de Mafalda fala de pausa criativa e diz não ter pressa de voltar”, mai. 2010 – Barreto, Raquel Goulart. As tecnologias na política nacional de formação de professores a distância:entre a expansão e a redução. Educ. Soc., Campinas, vol. 29, n. 104, p.919-937, out. 2008. – BRASIL. Portal MEC. “Estudantes começam a receber 150 mil computadores portáteis”, abr.2010
Doutoranda pelo ProPEd, participante do Grupo de Pesquisa Educação e Comunicação. |
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