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A face do novo professor?
Proponho a meu leitor uma imagem única como mote deste pequeno texto. É uma fotografia que vem de longe, de um lugar conhecido por seus múltiplos intentos e moderníssimos inventos tecnológicos. Sob o signo da aparência, a imagem capta em cena – por certo, em estranha realidade! – os traços peculiares de uma mulher japonesa, no esboço de seu olhar marcante e de seu sorriso tímido. Mas ao divisarmos sua essência, o que a fotografia materializa é uma face nada humana da própria figura feminina e, mais especificamente, da própria imagem de professor. Saya é o seu nome: uma android treinada para atuar como recepcionista, mas, reprogramada também para ensinar. Para além de si mesma, a fotografia de Saya nos permite problematizar a avidez com que a mídia se apropria das imagens de um cenário tecnológico exuberante para seduzir o imaginário espectador-leitor. Mas, sobretudo, nos incita, em função do lugar de onde falamos, a uma inquietação crescente quanto aos contornos da facedo novo professor. Equipada com 18 motores que conectam os olhos e a boca por meio de cabos, Saya é capaz de expressar algumas emoções básicas, tais como medo, surpresa ou felicidade. Em sala de aula, a “professora” chama os alunos pelo nome, distribui tarefas, faz a chamada e repete frases pré-programadas ao bom estilo pavloviano (a exemplo de “Fiquem quietos!”). Pela simplicidade das funções que é capaz de exercer, seu desenvolvimento ainda é visto como pouco alarmante em termos de uma concreta substituição do professor pela máquina. Mas Saya já tem sido vista como provável “assistente”, capaz, inclusive, de ajudar em escolas onde haja escassez de professores. O que fazer diante de uma cópia condicionada à tarefa de ensinar? Cumpre-nos, a meu ver, resgatar, em perspectiva crítica, os caminhos de uma formação docente ressignificada em meio a um empobrecimento generalizado da noção de conhecimento, a uma excessiva valorização da epistemologia da prática e ao enaltecimento das competências como paradigma educacional. Os contornos de Saya expressam com nitidez a faceta “tarefeira” do professor, faceta daquele a quem compete, nas palavras de Kuenzer (1999), dominar “meia dúzia de técnicas pedagógicas” (p. 182) que habilitam qualquer um a tornar-se professor. A proclamada intenção de que Saya seja aperfeiçoada até que possa ser controlada remotamente para ensinar, avulta em nós a preocupação quanto aos sentidos da formação e do trabalho docente em tempos de crescente determinismo tecnológico. Sua imagem expõe o simulacro ao debate. Corremos o risco de sermos radicalmente substituídos por uma cópia imperfeita de nós mesmos? Uma questão que fica, sem dúvida, em aberto. REFERÊNCIAS – KUENZER, Acácia. As políticas de formação: a constituição da identidade do professor sobrante. Revista Educação e Sociedade, Campinas, ano XX, n. 68, p. 163-183, dez/1999.
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ; bolsista FAPERJ; integrante do Grupo de Pesquisa Educação e Comunicação. |
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