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Dezoito legendas e uma citação Marcelo Macedo Corrêa e Castro
1. Há um vazio de significação no excesso de imagens que satura o espaço ao nosso alcance. 2. O exercício da leitura involuntária assalta nossa percepção ininterruptamente, diminuindo nosso desejo de sentido e nossa capacidade de diálogo e de resposta. 3. Massacradas, as retinas se deixam capturar, sem, contudo, haver tempo e espaço para convidar o cérebro às transformações necessárias ao reconhecimento e à apropriação. 4. A memória se deixa ocupar, em frágil permanência, por fluxos inorgânicos e totalidades corrompidas. 5. A palavra, desafiada em sua sobredeterminação, vive o desafio de inventar uma nova liberdade. 6. Entre olhar e objeto há convites, pedágios e chantagens que obturam percursos e ditam distâncias. 7. Destituídos do direito ao repouso, os olhos estão cegos de tanto ver. 8. Obrigados à decodificação ininterrupta, os sentidos se demitem da delicadeza e do refinamento, para abrigar tão somente o moto contínuo das mensagens efêmeras. 9. Um desespero de desatenção se instala em nossas interlocuções, a provar a inconsistência das negociações em prol do entendimento comum. 10. Para a falta de imagens que atestem a morte dos passageiros em alto mar, há cenas dos sobreviventes em sua dor irreparável. 11. Na impossibilidade de registrar a criança em seu percurso rumo à morte estúpida, empurrada ou arrastada por algum adulto ignóbil, faz-se uma simulação em computador, para que a noite de domingo em família seja mais excitante. 12. Como os cadáveres não se deixam flagrar facilmente e são logo envolvidos em negros plásticos, exibem-se os escombros, a lama e o desespero da miséria que ainda vive. 13. O desastre aéreo substitui o crime hediondo, que substitui a catástrofe natural, que substitui a traição escandalosa, que substitui o drama pessoal, que substitui a denúncia de fraude, que substitui o jogo decisivo, que substitui o encontro de lideranças mundiais, tudo substituído, cronometrada e metodicamente, pelo anúncio de cervejasabãoautomóvelseguroremédiocomidabancoketchupbiscoitofralda cursodeinglêsexcursãodenavioplanodesaúdeletrodomésticoprevidênciaprivada realizaçãogovernamentalúnicaapresentaçãopróximanovelacopadomundocarnaval reveillonautomóvelsabãoreveillonplanodesaúdeketchuppróximanovela excursãodenavioremédiorealizaçãogovernamentalprevidênciaprivadacursodeinglês cervejabiscoitobancoúnicaapresentaçãonovoauncianteespereeverá. 14. Há um excesso de vazios ao alcance do espaço de significação de imagens saturadas. 15. Aplicar colírios ressignificadores? 16. Desconstituir a racionalidade verbal? 17. Nomear o inominável? 18. Postos no exercício pleno de nossos direitos de significar, de divergir, de recusar, de rever, de não ver, de velar, de ultrapassar, de imaginar, enfim, o que não nos está proposto na imagem de quem nos imaginou, resta ainda, a todos nós, uma esperança de sentido.
19. “Pensar é estar doente dos olhos.” (Alberto Caeiro)
Professor Associado da Faculdade de Educação da UFRJ e poeta, trabalha com temas de Educação e Comunicação em diferentes contextos de ensino. |
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